terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Saudade, teu nome é Phoebe...


Onze anos passam tão depressa...

Nem sei como posso ter lembranças, se eu fui apenas um cão. Aliás, uma cadela! Estranho, isso que os humanos fazem. Precisam dar nome às coisas e muitas vezes se esquecem de que tudo é tão passageiro. Me chamassem de amiga, cuidassem bem de mim e eu já seria feliz...

Mas eu tive sorte, acho. Fui adotada depressa por um bípede a que vocês dão o nome de homem. Ele tem nome, mas isso não vem ao caso. Gosto de pensar que éramos seres vivos com direitos e deveres bem definidos. Nossa! Filosofar é cansativo até para os cães!

Mas, voltando ao assunto, o tal bípede me adotou, junto com outro animalzinho que, depois soube, era a minha irmã (mais um daqueles nomes que inventaram para dificultar a vida!)...

Mas ela se foi bem depressa, e o que posso recordar não é muito alegre.

Era noite. Ouvi um ganido, uma porta se abriu e ele rapidamente a acolheu nos braços. Senti ciúmes (coisa feia) mas esperei. Fiz bem, porque "senti" que ele chorava... E repetia baixinho: " - Vá em paz, Mel..." Acho que ali entendi que uma tal de Morte de vez em quando visitava humanos e cachorros... Naquele dia levou a Mel e me deixou lá, não sem antes falar que um dia viria me buscar.

Mas eu não liguei para isso. Queria viver e, de fato, vivi.

Ainda estava escuro quando ele saiu com a minha irmã... Não sei o que aconteceu, mas ao voltar ele me abraçou forte e disse que cuidaria de mim da melhor forma que pudesse.

Nem precisava dizer, eu já sabia!

Bem, isso faz muito tempo... Não teria como recordar tudo.

Mas ainda restam alguns minutos antes de partir... Posso falar mais um pouquinho.

Fui feliz, fui triste, fiquei doente, me recuperei. Fui mãe, brinquei muito nos quintais que me deram por direito, cacei bichos e de vez em quando levava uma bronca do meu amigo bípede -não gosto de pensar que ele era meu dono; afinal, eu era livre, né?

Mas ele não foi o único que conheci. Vi mais gente. Um menino foi o meu favorito.

Era Deus no céu e eu na Terra! Durante muito tempo eu só existi para ele. Brincávamos bastante e sempre ganhava afagos e petiscos. Ele tinha um apelido que meu amigo bípede lhe dera.

Era o Jhonny Boy... Saudade de você, amiguinho. Soube que você estava preocupado comigo e te agradeço por isso. Mas o meu tempo aqui com vocês já estava contado. Adoeci e fiquei feia, sabe? Nem parecia aquela amiguinha que lambia a sua cara o tempo todo! Melhor você guardar de mim a imagem de uma guerreira invencível, né? Mas não se iluda. A morte chega para todos, homens e bichos. Apesar do medo que alguns de vocês tem, eu posso dizer sem receio: não é ruim como dizem, desde que você vá na hora escolhida pelo Criador de todas as coisas e seres.

Deram a Ele o nome de Deus e disseram que Ele está em toda parte, mas eu não estou vendo este carinha por aqui. Vejo, sim, árvores, rios, nuvens e bichos de todos os tipos. E, veja só, Jhonny Boy... Tudo agora tem cor! Aí na Terra eu via tudo em preto e branco, como aquelas fotografias que meu amigo bípede tanto gosta. Engraçado, né? Precisei morrer neste mundo para saber que existe, sim, mundo melhor - para onde estou indo justo agora...

Não que eu tenha tanta pressa de ir, mas é que o meu amigo de tantos anos não para de chorar e eu não gosto de ver ninguém triste. Fui feliz, estou feliz e não acho justo que alguém sofra por minha causa.

Vi quando ele cuidou do corpo que durante onze anos me ajudou a conhecer as coisas deste mundinho estranho, onde ainda se vê tanta angústia. Aqui as coisas são diferentes, tem mais brilho... Existe paz.

Uma vez ouvi quando ele falou de "campos verdejantes"... Pois bem, é o que tenho pela frente! E flores, muitas flores! Pássaros de mil cores. Será que já cheguei no Paraíso dos cachorros?

Alguém me chama e tenho mesmo que ir. Ficar o faz chorar e já disse que não é justo.

Até breve, Jhonny Boy! Quem sabe não nos encontramos de novo por aí? Diga ao meu amigo bípede que estou bem, apesar da saudade, essa coisa que ninguém consegue tirar do nosso peito. Só mesmo o reencontro...

Minha profunda gratidão a todos aqueles que me amaram... Eu volto, quando puder...

Phoebe


2 comentários:

Eloy disse...

Sei o quanto é triste perder um amigo canino, para nós que os amamos. Esse texto trouxe muitas lembranças de Scooby, de quem nunca esqueci, e marejaram meus olhos. Resta desejar muita paz, à Phoebe e à você meu amigo.

Edu Corrêa disse...

Tristemente lindo.