sexta-feira, 20 de março de 2015

Outonos sem donos...





Ainda que não falem as rosas, deixem que cantem os botões...

Ainda que não caiam as folhas, deixem que vivam as flores.

Ainda que não corram os ventos, deixem que sigam os sonhos...

Ainda que não durma quem sonhe, deixem que suspirem os tempos.

Pois que o retorno é vida e vida é morte, bendiga o outono que renova e ampara.

Das estações as lições, das lágrimas a certeza.

E dos sorrisos, só espero o que me serve...

Tarefa para o fim do verão: olhe adiante.

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Insone e inquieto.


Quem negligencia a própria origem há de se lembrar um dia de que o esquecimento é temporário. Cada um guarda em si todas as marcas da existência. Relembrar é nascer de novo.

Que o passar das horas anuncie não só a morte, mas também a esperança da imortalidade.

Tarefa para quando o silêncio for absoluto: ouvir-se.

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Cansado...



Cansado de olhar sem ver, saber sem aprender, de querer sem querer... Cansado de cansar à toa. Cada minuto se faz grilhão, fogo, peso, incômodo.

Incomoda o mundo enfurecido, a sombra fugidia, o calor instigante, o frio inconstante. Incomoda ficar parado.

Cansado de sonhar, acordar, dormir sonhando, acordar com medo, dormir sem sono, gritar sem voz. Dormir e não querer despertar.

Incomodam as farsas que nos sustentam, as artes deturpadas, os segredos sujos, as conversas atravessadas, homens e mulheres fúteis. Incomoda viver com eles. Desejo viver sem eles.

Tarefa para depois da última canção: desistir de ser original.

Eterno...



Vivo em eterno ruído porque pensamentos dissonantes não permitem o silêncio.

Vivo em eterna saudade porque amores perdidos no tempo estão vivos no esquecimento.

Vivo em confusos desejos porque minha esperança quer o que minha vida não precisa.

Vivo em meio aos que já não vivem porque, apesar do silêncio e da necessidade, ainda sinto.

Tarefa para depois da superação: anestesiar o momento.


domingo, 2 de junho de 2013

Passos em noites frias...



Passos, desencontros, impasses...

Noites frias por companhia silenciosa, exceto pelas vozes incontidas do tempo. Tempo de considerar hipóteses, descartar censuras, entender loucuras.

Impasses, desencontros, passos...

Dias longos por desperdício das horas, exceto pelos segundos silenciosos da perda. Perda de referências, valores, amores.

Páginas viradas, vidas roubadas, alegrias recuperadas...

Minhas alegrias preenchem duas páginas e ainda não tenho ideia de como será a capa. Mas o prefácio está concluído.

Tarefa para depois do retorno: partir uma vez mais.




domingo, 10 de março de 2013

Sobre Líderes...



Não tenho mais estômago para a hipocrisia - como se bastasse esconder a podridão do mundo para torná-lo melhor.

Porque um dia fui apresentado a alguns poucos horrores perpetrados por mim, em nome de Deus e da Força, é que fui trazido para o atual e indispensável convívio com a minha realidade espiritual.

Sou positivista em se tratando de crer no Tempo como Artífice e Matéria Prima do meu Futuro.

Mas já não posso crer em movimentos, ideologias e religiões muitas vezes pautados no imediatismo - quando não nascidos do crime. São todos férteis em representantes da escória do mundo, calhordas de variadas estirpes. E não pense que descuido da autocrítica... Quase posso adivinhar o que andei aprontando por aí em épocas distantes, se apontadas em calendários - mas bastantes próximas pelo recurso da memória inconsciente...

Talvez por isso mesmo, por conhecer a sordidez desses demagogos, minha repugnância por eles se torne quase tangível.

Tenho piedade de mim na medida em que supero minhas dificuldades diárias mas sempre penso que posso e devo fazer mais. Quanto aos outros, bem... São os outros e cada um cuide de si como puder. Suas dores lhes pertencem, não a mim.

Fica a certeza de que pessoas como você fazem além do que julgo merecerem, enquanto eu faço o que acho que merecem. Se merecerem.
De fato, tenho estado sim, desencantado com este mundo falso, egoísta, insustentável e mentiroso. Me apavora ver "líderes" arrastando multidões de ignorantes com suas promessas macabras. Me causa muita náusea ouvir imitações de uivos dessa nova alcateia que exterminou os lobos - em sua pureza selvagem - para dominar e pilhar as riquezas da floresta na qual deveríamos todos conviver em paz.

Por fim, deixei de ser exigente com os outros e já não me boicoto como sempre fiz. 

Estou sozinho, preferindo arcar com o vazio dos dias e noites; mas em paz com as sombras da Alma. Minha Alma.

É meu rito de passagem tardio. Minha crise existencial morna e lenta, irritantemente lenta.

Não levo companhia nessa travessia, senão a Fé e a certeza de que há quem olhe por nós de Mais Alto - ainda que eu não entenda a Sua Magnitude.

Tarefa para depois da chuva: varrer as folhas soltas da memória.




segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Uma luz apontava para o céu...



Dia de sentir aquela dor, velha conhecida, que não consome ossos nem músculos... Consome energia, ânimo...

Consome Vida.

O vazio, que nada é, supera o tudo que se espera que eu seja. Ou que espero ser.

Vazio e dor. Vácuo e som. A presença de um não permite o outro, mas na imaginação tudo é possível. Daí uma crença quase convincente de que se o desconhecido assim permanece, melhor para quem não ousa desbravá-lo.

Porque em seu pórtico habita um Cérbero já envelhecido porém ainda ameaçador... Dele algumas almas já se esquivam e voltam do Hades para dizer que não há lá muita diferença do que se vê por aqui.

Ouvindo essas almas que se me apresentam em sonhos desencontrados, chego à conclusão de que não é dor o que sinto...

É uma ansiedade, uma vontade de acabar logo com isso e partir rumo ao trabalho que não cansa, ao tempo que não envelhece e ao amor que não desgasta.

Tarefa para quando a Hidra descansar: fuja bem depressa.


sábado, 2 de fevereiro de 2013

Promessas...


Perguntei a uma amiga se ela andara prometendo o sol a alguém.

Respondeu que não e isso me fez pensar...

Quanto prometi e não cumpri?

Quanto me prometeram?

Quantas promessas não passaram de mentiras com nomes bonitos? Minhas mentiras, grandes ou pequenas... E também as mentiras do mundo.

Por isso decido prometer, em vez do sol, a sombra do silêncio acolhedor nos dias de calor intenso.

Não será uma sombra suficientemente grande para abrigar todos os esquecidos e maltratados. Mas cada um que se aproximar de mim poderá levar consigo uma nesga de conforto para quem anda sem rumo no deserto calcinante das más escolhas...

Isso eu posso prometer. Mais, seria desejar a Vida sem provas e desafios...

Tarefa para quando a noite refrescar a brisa que vem de longe: seja luz que não cega, calor que não queima e sombra que não esconde.




terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Saudade, teu nome é Phoebe...


Onze anos passam tão depressa...

Nem sei como posso ter lembranças, se eu fui apenas um cão. Aliás, uma cadela! Estranho, isso que os humanos fazem. Precisam dar nome às coisas e muitas vezes se esquecem de que tudo é tão passageiro. Me chamassem de amiga, cuidassem bem de mim e eu já seria feliz...

Mas eu tive sorte, acho. Fui adotada depressa por um bípede a que vocês dão o nome de homem. Ele tem nome, mas isso não vem ao caso. Gosto de pensar que éramos seres vivos com direitos e deveres bem definidos. Nossa! Filosofar é cansativo até para os cães!

Mas, voltando ao assunto, o tal bípede me adotou, junto com outro animalzinho que, depois soube, era a minha irmã (mais um daqueles nomes que inventaram para dificultar a vida!)...

Mas ela se foi bem depressa, e o que posso recordar não é muito alegre.

Era noite. Ouvi um ganido, uma porta se abriu e ele rapidamente a acolheu nos braços. Senti ciúmes (coisa feia) mas esperei. Fiz bem, porque "senti" que ele chorava... E repetia baixinho: " - Vá em paz, Mel..." Acho que ali entendi que uma tal de Morte de vez em quando visitava humanos e cachorros... Naquele dia levou a Mel e me deixou lá, não sem antes falar que um dia viria me buscar.

Mas eu não liguei para isso. Queria viver e, de fato, vivi.

Ainda estava escuro quando ele saiu com a minha irmã... Não sei o que aconteceu, mas ao voltar ele me abraçou forte e disse que cuidaria de mim da melhor forma que pudesse.

Nem precisava dizer, eu já sabia!

Bem, isso faz muito tempo... Não teria como recordar tudo.

Mas ainda restam alguns minutos antes de partir... Posso falar mais um pouquinho.

Fui feliz, fui triste, fiquei doente, me recuperei. Fui mãe, brinquei muito nos quintais que me deram por direito, cacei bichos e de vez em quando levava uma bronca do meu amigo bípede -não gosto de pensar que ele era meu dono; afinal, eu era livre, né?

Mas ele não foi o único que conheci. Vi mais gente. Um menino foi o meu favorito.

Era Deus no céu e eu na Terra! Durante muito tempo eu só existi para ele. Brincávamos bastante e sempre ganhava afagos e petiscos. Ele tinha um apelido que meu amigo bípede lhe dera.

Era o Jhonny Boy... Saudade de você, amiguinho. Soube que você estava preocupado comigo e te agradeço por isso. Mas o meu tempo aqui com vocês já estava contado. Adoeci e fiquei feia, sabe? Nem parecia aquela amiguinha que lambia a sua cara o tempo todo! Melhor você guardar de mim a imagem de uma guerreira invencível, né? Mas não se iluda. A morte chega para todos, homens e bichos. Apesar do medo que alguns de vocês tem, eu posso dizer sem receio: não é ruim como dizem, desde que você vá na hora escolhida pelo Criador de todas as coisas e seres.

Deram a Ele o nome de Deus e disseram que Ele está em toda parte, mas eu não estou vendo este carinha por aqui. Vejo, sim, árvores, rios, nuvens e bichos de todos os tipos. E, veja só, Jhonny Boy... Tudo agora tem cor! Aí na Terra eu via tudo em preto e branco, como aquelas fotografias que meu amigo bípede tanto gosta. Engraçado, né? Precisei morrer neste mundo para saber que existe, sim, mundo melhor - para onde estou indo justo agora...

Não que eu tenha tanta pressa de ir, mas é que o meu amigo de tantos anos não para de chorar e eu não gosto de ver ninguém triste. Fui feliz, estou feliz e não acho justo que alguém sofra por minha causa.

Vi quando ele cuidou do corpo que durante onze anos me ajudou a conhecer as coisas deste mundinho estranho, onde ainda se vê tanta angústia. Aqui as coisas são diferentes, tem mais brilho... Existe paz.

Uma vez ouvi quando ele falou de "campos verdejantes"... Pois bem, é o que tenho pela frente! E flores, muitas flores! Pássaros de mil cores. Será que já cheguei no Paraíso dos cachorros?

Alguém me chama e tenho mesmo que ir. Ficar o faz chorar e já disse que não é justo.

Até breve, Jhonny Boy! Quem sabe não nos encontramos de novo por aí? Diga ao meu amigo bípede que estou bem, apesar da saudade, essa coisa que ninguém consegue tirar do nosso peito. Só mesmo o reencontro...

Minha profunda gratidão a todos aqueles que me amaram... Eu volto, quando puder...

Phoebe


segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Sem olhar para trás...



Se ando sozinho pela escuridão e ouço uivos, interpreto que há lobos na floresta.
Se há lobos, há perigo?
Se há perigo, há medo.
Havendo medo, recuo.

Se espero por algo impossível e sofro, interpreto que há escolhas equivocadas.
Se há equívoco, há perigo?
Se há perigo, há medo.
Havendo medo, desisto.

Se decido recomeçar e reinvento cada dia, interpreto que devo continuar.
Se há continuidade, há perigo?
Se há perigo, há medo.
Havendo medo, enfrento.

Tarefa para depois de ouvir um blues: não olhar para trás.


segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Sobre amizades que vem de longe...


Texto dedicado a quem soube esperar...

Sempre há pelo caminho alguém que separa a sua vida em duas partes desproporcionais. Uma parte é a experiência. A outra, saudade.

Sempre há pelo caminho alguém que te faz sonhar dois sonhos desiguais. Um sonho é a certeza de que valeu a pena. O outro, a certeza de que continuará valendo.

Sempre há pelo caminho alguém que te faz enxergar duas metas opostas. Uma já é fato. A outra, futuro.

Sempre há pelo caminho alguém de quem jamais esqueceremos, por duas razões distintas. Uma é a amizade pura de quem ama sem expectativas. A outra é o amor feito amizade que transcende a expectativa  do tempo. 

Sempre há pelo caminho alguém que desconhece o valor da verdade.

Sempre há pelo caminho alguém que conhece a Verdade.

Sempre há pelo caminho outros caminhos... Por isso sempre haverá um amigo à sua espera, qualquer que seja a sua escolha.

Tarefa para quem nunca encontrou um alguém assim: escolha outro caminho.

Quase dúvida, certeza pela metade...



Que necessidade tenho eu de ser um, se posso ser mais?

Carrego minhas culpas e minhas decepções rente ao muro das lembranças... A sombra espessa que me acompanha repudia meus gestos de insatisfação enquanto aponta o caminho que nos levará ao vazio. Uma vez mais o sabor da angústia fustiga minha língua silenciosa e dormente.

Sinto vontade de ser de outros lugares. Meu espírito vaga pela vida sedento de paz. Que não encontro...

Resisto aos chamados das religiões - mais vezes ilusórias, que produtivas. Amigos tentaram... Resta a dor intensa como último recurso. Ou refúgio...

Resisto aos chamados do inconsciente - mais vezes sonhos despedaçados, que revelações do Eu profundo ainda cambaleante. Símbolos tentaram. Resta a loucura como último ato. Ou fato...

Minhas desilusões e perguntas sem respostas aumentam o peso de um fardo que não me pertence, posto que passageiro.

Viver é mais.

Tarefa para a próxima dor: ignore-a.

(Escrito em 17 de Setembro de 2012...)


Maior, menor, igual.


Uma sombra que se furta à presença da luz cumpre, a sós, o papel que lhe cabe nos teatros do devir. Sua missão é menor se comparada à sua prepotência...

Um luzir de incertezas que agiganta a dúvida maior do homem, sucumbe, em paz, diante do inesperado. Sua dor é maior se comparada à sua inutilidade...

Um temor inconsciente que se esconde no vazio das almas enfraquecidas descobre, assustado, que o Espírito é sustentáculo do Existir. Sua decepção é menor se comparada à sua instabilidade...

Tarefa para depois de todas as dores: recomeçar.

(Escrito em 02 de Junho de 2012 e largado por aí...)

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Para quem sente saudade de casa...




Se dos olhos ou do olhar, não sei de onde vem...
Só sei que chega sem tempo ou aviso.
Quem sente é sempre aquele que prefere sorrir.

Um quê de sombrio da o tempero que a Vida requer.

Sou da verdade o verbo, do verbo o objeto, do objeto a sombra.
Sei que sempre serei, mas nem sempre saberei quem sou.
Vim do Tempo, do tempo fugi às pressas... Vim sem pressa.

Voltar é questão de tempo. Não saber quando, faz a Vida valer o que é...

Vivo, viva, vivamos.

Fim para que, se o início faz valer a pena?

Tarefa para um dia de finados: ressuscitar a Vontade.


segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Gradiva se reinventa...


Passamos tempo demais distraídos com reflexos de coisas que nem mesmo nos são adequadas. Quando percebemos o equívoco, a vida se foi de modo sorrateiro levando, consigo, as horas e seus valores individuais - tão absolutos quanto efêmeros...

Daí a relatividade daquilo que convenientemente chamamos Verdade.

Sem ter muito a oferecer a quem tanto me ensinou, deixo meu reconhecimento e gratidão, além da saudade dos tempos em que podíamos brincar de ser filósofos sem medo das críticas...

Tarefa para o dia do seu aniversário: fazer nada de modo criativo!

domingo, 2 de setembro de 2012

Datas...



Segundos: brevidade do tempo.

Minutos: correria do tempo?

Horas: algo mais de vida.

Dias: algo menos da vida?

Meses: tristeza ou alegria.

Anos: experiência?

Décadas: mais experiência.

Séculos: certeza da continuidade?

Milênios: caminho da Eternidade.

Aniversário: resumo do que se aprendeu no compasso da existência.

Tarefa para amanhã: acreditar.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Incômodos...



Nem sempre quero saber.
Nem sempre quero perder.
Nem sempre quero.

Quase sempre quero ser.
Quase sempre custo a crer.
Quase sempre não quero.

Hoje não é dia para divagações...

Tarefa para depois da leitura: esquecer.


quarta-feira, 18 de abril de 2012

E ainda perguntam se eu volto...

Queria ter mais tempo para não pensar nas horas.

Queria ser mais responsável para ser irresponsável quando e se necessário.

Queria ter menos frio para não depender do fogo da raiva incontida...

Queria ser mais tolo para preencher as lacunas do esquecimento.

Também queria ter mais sabedoria para sair do torvelinho dos sonhos que não se realizaram...

Queria?

Quero...

Tarefa para depois do almoço: esvazie a mente e descubra o significado da palavra Eternidade...


sábado, 10 de dezembro de 2011

Concebendo, reconhecendo, sei lá...

Quando penso que cheguei, retorno. Quando penso que voltei, parto. Quando acho que parti, fiquei. Quando fico, retornei. Quando cheguei, ninguém estava lá.

O senso da perfeição nem de perto lembra a estreita periferia da razão. Porque a arte é tudo e nada... Porque a música é uma desengonçada junção de sete notas... Porque um quadro é apenas a lágrima colorida de um artista em preto e branco...

Se tem nexo, é fato. Se não tem, é poesia. Porque o verso é a seiva de um triste farrapo que se diz artista...

E o que se espera de nós?

Cautela...


sábado, 5 de novembro de 2011

Dúvidas... Eu duvido.

Nas grandes realizações da humanidade sempre houve aquela pitada de sarcasmo diluindo a tensão de um conhecimento novo e nem sempre esperado. O sarcasmo é o alimento da ilusão.

Ilude-se quem aposta na "novidade"...


Se...


Se eu tenho, se eu ostento, se eu compro, se eu pareço... Então sou outro.


Muita informação para uma só encarnação...

Quanto lixo eu leio por dia?

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Para você, que me faz ter sentido...

A maior expressão de leveza d'Alma que pode um homem experimentar, reside no sentido de plenitude que se apreende da vida em suas mais diversas formas.

Há vida onde houver sentimento; há sentimento onde houver boa vontade; há boa vontade onde houver sinceridade. Há, portanto, vida em toda parte. Em cada espaço de Tempo, uma réstia de sentimento potencializa cada mínimo desejo que podemos alimentar.

De sentimentos nos nutrimos continuamente. O bom e o belo caminham próximos o bastante para nos fazer acreditar num futuro sequer imaginado.

Imponderável, insubstituível, imprevisível... Distante; constante e preponderante, o Tempo.

Acredito no possível sem perder de vista o seu oposto...

De Alma leve posso quase tudo. Posso, enfim, realizar. Faltava-me um sentido. Não falta mais.

Meu sentido, meu Norte, minha luz, meu rumo... o que quer que seja, passa por você, presença constante nos meus sonhos... Não digo seu nome, porque a Vida te reconhece.

Loucura?

Loucura é viver de poesia, se ela me consome!

Exagero?

Não creio... Nenhuma verdade pode assim ser definida...

Tarefa para quando a Alma estiver acima da mediocridade humana: volte para ajudá-los...

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Em tempo, a tempo, com tempo...

Depois de cada mudança, o sábio se prepara para outra. O tolo se perde em especulações... De tanto se perguntar, desaprende. De tanto desaprender, esquece. De tanto esquecer, não vive.

De não viver, vivi por tempo demasiado. De ouvir ecos passados, deixei de ser o que nasci para ser. De deixar em deixar, passou o tempo...

E de novo a Vida me solicita, quando muito longe me vi dos alegres momentos que nos permitimos ter neste mundo estranho e desconfortável (às vezes cruel).

Das sombras que me embaçaram os sonhos, quero sequer lembrar. Prefiro reaprender a estar de volta.

Tarefa para depois do torpor: reencontre no tempo o muito que te completa.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Como sei tanto da minha loucura?


Sei o bastante para saber...
Não sei quão distante posso querer...
Nem sei o instante exato de pretender.

Tarefa para quando levar o cão para passear: deixe-o latir em paz!

domingo, 19 de dezembro de 2010

Hipoteticamente...


O fraco sucumbe, o forte triunfa; o belo exulta, o feio se apaga; o novo envelhece, o velho desaparece...

O certo não erra, o errado sofre; o de cima declina, o de baixo se ergue; o calado permanece, o eloquente esquece...

Hipoteticamente, ninguém mente...

O desonesto não devolve, o correto se envolve; o que perde se reencontra, o que desencontra se afasta...

O que manda, perece...

Hipoteticamente, ninguém te espera...

Se ando, a vida corre. Se corro, a vida voa. Não sei voar, então caminho sem pressa. Ser ou estar no mundo é opção. Sobreviver, é dever. Então suponho.

Hipoteticamente, alguém te escolhe. E tudo recomeça.

Hipoteticamente, nada tem fim... Mas só por hipótese.

Tarefa para quando o sol apagar: pairar acima do medo...

sábado, 18 de dezembro de 2010

Entre o silêncio e o cansaço.


O mais perfeito dos imperfeitos poderia supor que solidão é a diretriz dos tolos. E poderia estar certo.

Sem voz, o mundo é drama e imagem. Simples murmúrios no concerto dos mundos, poemas de todas as épocas lamentam a tragédia humana sem se darem conta do preço que se paga pela indiferença.

Páginas em movimento, versos vazios pululam enquanto o solitário abandona a esperança, quase sempre trocada pela ironia e pelo ódio.

Ódio infame, doentio e zombeteiro. Daí o cansaço...

Cansado de acreditar.

Tarefa para uma tarde sem graça: ousar. Ou não...

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Decisões, tensões... Resultados?

Que é ser livre, afinal?

Liberdade não é apenas decidir, mas saber como; e, se conhecimento gera sofrimento, necessariamente sofro com a liberdade.

Nem preciso entender...

Libertar e libertar-se. Dois destinos, duas tarefas indissociáveis... Dois desejos inadiáveis, dois olhares, decisões...

E das tensões falam os calafrios insurgentes. O toque do novo, o gosto do belo, a curiosidade do tolo e a formalidade do gesto... Tudo isso e mais. O tempo que não se deixa aprisionar, meu tempo, minha pressa ou minha paciência, meus dias e noites. Que resultado espero do novo?

Eu, nós, os outros, todos eles... Pronomes anônimos, promessas e seus sinônimos. Enfim...

Liberdade ou náusea?

Tarefa para depois do "mais!": decidir.




quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Depois de tudo...





Vi muitas dúvidas... 

E duvidei do que vi.

Tive muitas certezas... 

E certamente as esqueci.

Tive muito tempo... 

E nem vi quanto perdi.

Esqueci muitas coisas...

Que esquecidas ficaram.

Escrevi o que lembrei... 

E apaguei o que não vivi.

Duvidei do que escrevi, nem vi o que perdi, por muito tempo não lembrei das certezas que esqueci. 

Depois de tudo... Sobrevivi.

Por que não querer um sorriso, se o pranto me incomoda? Por que não te dar um abraço, se o meu medo me apavora? Por que não esquecer, se a lembrança me tortura?

Amor próprio é de quem dele se apodera. Hoje não disse mentiras. Nem disse todas as verdades, porque não se pode medir sentimentos. Então eu calo.

Tarefa para depois de tudo: mais!

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Das muitas diferenças, a mais igual se destaca.

E mais de uma trouxe o fim de uma história. Breve para ser chamada de eterna, longa demais se comparada à perda.

De tempo, de motivos, de desejos...

Diferenças iguais em demasia, foi isso. Não quis nem pude mudar tanto quanto queriam, assim entendo. No fim de tudo, mais certezas. Muitas iguais, muitas diferentes.

Ninguém perde. Ninguém sofre? É uma questão de objetivos, expectativas. Eu ganho se perco.

Ganho outra chance de ser quem sou. Mais? Não preciso...

Tarefa para o sono agitado de hoje: abstrair, confiando no tempo...

sábado, 11 de dezembro de 2010

Mudanças

De dezembro a Março eu desisto de entender... Muitos eventos, muita hipocrisia, mais tolos ensandecidos nas ruas. E um triste no meio deles...

Nunca deixe de esperar o inesperado caso não queira perder o rumo. Meu rumo agora é outro e parto sem companhia. Se houver alguma na estrada, que ande pelo acostamento. Ou meu silêncio a esmagará.

Dias e noites bem difíceis tenho vivido. Mas isso também passa...

Tarefa para o fim de tarde: criar coragem para a saída.

sábado, 10 de abril de 2010

Que tragédia?



Depois de nascer e crescer, sobreviver.

Depois de tudo, nada. Sem lar, sem lazer, sem descanso ou dignidade.

Nem a fome o abala. Nada se move.

Eu passava, e passando registrei.

Imagem do abandono? Imagem da solidão? Imagem de que tragédia?

Tarefa para depois do Caos: ...

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Solidão? Eu não entendo...

Data: Um dia qualquer entre Dezembro de 1995 e Fevereiro de 1996.

Local: Minha casa, em bairro distante e maltratado da Cidade do Rio de Janeiro.

Hora: Fim do dia, início da noite, de acordo com o que vai no espírito...

Entro em casa e que vejo eu?

Minha mãe, sentada num canto da sala. Nas mãos, uma carta. Chorava.

Pergunto o motivo e, como resposta, ela atira em minha direção a tal missiva.

Li. E vi, nas poucas linhas, ótimas notícias. Era uma nota informando que o primeiro depósito da pensão, a que ela fazia jus, estava na conta.

Meses e meses após a morte do meu pai, um longo período de vacas magras, finalmente, chegava ao fim. Não que as vacas fossem engordar de um dia para o outro, mas, a partir dali, já teriam um capinzinho reforçado no almoço!

Que tem a solidão com isso?!

Quando questionei a tristeza e o choro, veio a surpresa.

"- Eu preferia que ele estivesse aqui!"

Naquele momento, minha mãe era a Solidão personificada. Cadáver insepulto. Um misto de fracasso e desespero, face marcada pela dor. Aquela imagem eu poderia entender. Mas... Solidão?

Meus pais já vinham descendo a ladeira há anos. Desde que me entendi por gente, eu os via brigar por qualquer motivo. Era dia de festa? Briga. Não era? Briga, também. Tortura sem fim, com reflexos vivos ainda hoje, quando o tempo parece andar mais depressa...

Inúmeras vezes ela rezara para que o "maldito galego cachaceiro" morresse de uma vez.

Bem, suas preces foram ouvidas. Ele morreu e todos nós achamos que a paz havia, enfim, chegado àquela casa humilde... Ledo engano. Morreu o corpo, ficou a lembrança. E, com ela, todos os desdobramentos de uma existência turbulenta. Mágoa, arrependimento, vazio, saudade...

Viveram juntos por décadas. Brigaram quase o tempo inteiro. Nos últimos meses, inferno total. A doença vem, sutil, e o leva. Ela chora...

Solidão não é ausência de companhia. E nunca será.

Solidão é estado de espírito. E sempre será.

Nosso viver no mundo é um calvário quase sem fim. A solidão é cruz das mais pesadas. Eu só tenho a agradecer, porque a minha é de isopor e tem rodinhas! É fácil carregá-la. Porém mais fácil ainda é pensar que mereço outra mais leve. Não mereço...

Mais sozinho do que o Cristo em seu calvário nunca houve. Mas Ele sabia o motivo. E foi até o fim, seguido de perto pelos inimigos aos quais perdoara.

Desculpem-me se os cansei com a narrativa enfadonha de um drama familiar. Mas não encontrei melhor forma de retratar a solidão de um Espírito que jamais encontrou companhia em si mesmo.

Sobrevivi ao caos e posso dizer que não foi tão ruim. Foi útil, de certa forma. Sofri, cresci, aprendi e até casei!

Hoje compartilho espelhos com aquela que julguei ser a melhor companhia para os dias futuros.

Se amanhã entendermos que os espelhos já não refletem nossas vontades comuns, o que nos impedirá de procurar novos reflexos?

Ainda que provenientes de nossas próprias almas...

Tarefa para as almas: Reflitam!

domingo, 10 de janeiro de 2010

Recesso...

Sem nada para escrever, valorizo o silêncio...


sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Não quero, não posso, não devo...

Não quero, porque não devo.

Não posso, porque não quero.

Não devo, porque não posso.

Ou vice-versa.

Percebem quanta bobagem se cria com poucas palavras? Daí o tempo ratificando meu ócio.

Faz calor no Rio de Janeiro, em Havana e em Salvador. Havana? Que têm os cubanos com isso?

Chato, muito chato não ter o que dizer.

Tarefa para o próximo Natal: reze pelo próximo.


sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Sons do passado.



Aos dezesseis descobri a música como companheira ideal de crises existenciais. Rock. Clássico, Progressivo e outros menos cotados. Atitude e rebeldia. Barulho...

Havia um programa na saudosa Fluminense FM chamado Rock Alive, que salvou-me inúmeras vezes do abismo que é ser adolescente.

Quinta às dez da noite.

Por que estou escrevendo isso? Porque aos quarenta e dois aqueles sons ainda têm um poder que não se explica por "gosto musical" ou coisa que o valha.

Quando queria isolamento, subia furtivamente para a laje de nossa casa com um velho rádio que pertencia ao meu pai - que, por sinal, detestava as músicas que eu ouvia. E ficava lá até meia-noite, quando acabava o programa. Duas horas de liberdade ao som de bandas quase sempre desconhecidas e estranhamente poderosas. Ouvir aqueles sons oriundos da Cortina de Ferro, do Japão, da Argentina ou do Rio de Janeiro era sempre um modo de acreditar no fim da agonia. Acordes abaixo, estrelas acima. Meu espírito pairando entre. Sem pensar no dia seguinte, sem pensar na tristeza de um abandono, na dor de uma repreensão injusta ou na excessiva cobrança por resultados que eu nunca desejei...

Dia desses entrei numa lojinha no centro do Rio e encontrei algumas preciosidades em CD, esta velharia já agonizante. E me senti como se fosse um abutre à espera de novos cadáveres. Será isto viver do passado ou apenas a chance de ter enfim aquilo que noutros tempos faltou-me?

Não vem ao caso. Importa dizer que adquiri vários títulos raros da época em que a laje era meu divã. Asia Minor, por exemplo. Between flesh and Divine.


"There is no universe

Without harmony

And no illusion

Without dreaming"


Tarefa enquanto girar o disco: relaxar...

sábado, 4 de julho de 2009

De sabores e dissabores...

Curiosa a dança das letras.

Como o vento, com o vento, comovente... um mover de peças e o sentido se vai, se esvai...

Sempre gostei de jogar com as letras. E, jogando, aprendi... as prendi. Aprendi a ser mais ou menos, de acordo com as intenções ou tensões. Sempre diverte a alma a lucidez do olhar.

Mas o tema principal é um acorde adormecido, mero tilintar de opiniões em meio ao grande esquecimento.

Almas em desfile, crises sem destino, cruzes sem Cristos... "Apanhe seus pecados e ponha-se longe de mim!" - diria o menos sensato. Mas quis a História registrar os feitos de um passageiro atemporal...

E se foi em meio a dissabores.

Deixou a marca da superação, o exemplo maior que nos move à frente.

De sabores e sons, de impressões e pressões, estamos plenos. Falta-nos o êxtase da descoberta do sentido maior.

Tarefa para quando o exílio terminar: entender.


terça-feira, 23 de junho de 2009

Incapazes.

Somos, enfim, capazes de saber?

Saber conviver sem viver a vida de quem nos é indiferente?

Saber entender o que é diferente de ser diferente?

Saber perceber o que imperceptível é?

Verbos, finitos, infinitivos, conjugáveis...

A maldade é justamente não explicar.

E basta!

Sem tarefa hoje. Descansemos em paz...


segunda-feira, 11 de maio de 2009

Otimismo, pessimismo e realidade.

Otimismo: achar que podemos transformar um pessimista em qualquer outra coisa menos estúpida.

Pessimismo: Duvidar que seja possível.

Realidade: Não perder tempo achando ou duvidando.

O pior desespero é o silêncio imposto a grito. Nada a declarar, dirão os culpados. Ninguém me ouve, clamarão os inocentes. Entre ambos, o mundo.

Um mundo, aliás.

Mundo inteiro de horrores e venturas, desde que estejamos do lado certo.

Lutar contra o possível é dar margem ao escárnio do impossível. De longe todas as mentiras se parecem. E se merecem.

Nexo para uns é caos para a maioria. Quem faz muito ruído não quer se ouvir...


Tarefa para o dia inteiro: Silêncio!

terça-feira, 14 de abril de 2009

O mar, a chuva e a saudade.



A leveza do desencontro de três grandes forças... Do luto à vida e da vida ao infinito...

O mais poderoso dos mares será incapaz de conter a fúria de uma saudade esquecida. Saudade é para ser consumida sem escrúpulos. Evitá-la será desastroso sempre. Não há psiquismo que suporte a pressão de um sentimento represado.

E a chuva? Que tem com isso?

Nada... É que chove agora e não quis deixá-la de lado. Mas atire a primeira pedra quem nunca chamou pelos mortos e desertores numa tarde chuvosa!

Justo agora duas famílias vivenciam seus lutos, cada qual à sua maneira. De igual, a saudade. Viver e morrer... No intervalo, perdas e conquistas. É tudo que resta?

Bendita saudade que não nos deixa esquecer a possibilidade do reencontro.

Tarefa para quando parar de chover: reencontre um amigo, se ainda houver tempo.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Das causas e efeitos...



Escolhas, decisões, caminhos... Tantos nomes e o mesmo calafrio na hora de retomar a vida.

Quem escolhe por nós? Quem decide por mim? Quem caminha contigo?

Passos e tropeços, tombos e ébrios. Causas e efeitos, nascimento e morte. Pares, sempre pares. Opostos, coerentes, conflitantes... Ainda assim, pares.

Quem já se perguntou qual o sentido da vida reconhece a própria insignificância diante do inevitável progresso espiritual.

Causa: Deus.

Efeito: Nós.

Tarefa para hoje à noite: descobrir par melhor.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Névoa e poeira.

Por algum motivo dispensável, ruídos em meio a névoa sempre assustam mais. Talvez pelo fato de nos lembrarmos dos contos ingleses, sempre recheados de grandes mistérios e pequenas mentiras. E heróis. Nem tão grandes como descritos, nem tão pequenos que condenados ao ostracismo. Heróis, apenas heróis...

Mas prefiro defender os covardes e culpados. Para eles, a névoa é o sagrado manto da sobrevivência. E por que defendê-los? Porque suas histórias se confundem.

Os heróis galgam o Olimpo. Covardes e culpados varrem o pó.

Pó, poeira, sujeira... Resquícios de um sonho covardemente atacado.

Todos sonharam, poucos venceram, muitos falharam.

Tarefa para quando a poeira baixar: duvide do fim.

segunda-feira, 9 de março de 2009

Tanto faz o nome que se dê. Importa saber se é útil.

Opiniões... Posso tê-las em grande número. Convicção, só uma. Aos quarenta e dois de vida, perdi a conta dos erros que cometi. Mas, na matemática da vida, quase sempre mais é menos.

Não se trata de redescobrir temas da minha origem ou simplesmente descrever um percurso bastante tortuoso. Escrever sobre o que somos é, para quem se atreve, abraçar a dor e a ilusão. Ninguém se furtará ao cruel instrumento de que os deuses se utilizam para torturar seus filhos inquietos. O Tempo.

Minha lembrança mais antiga não comporta pai ou mãe. Ou irmãos. Não sei dizer qual era a minha idade, mas o fato é que ainda hoje lembro perfeitamente da cena.

Olhos verdes profundos, rosto austero, minha avó materna parecia estar sempre zangada. E talvez estivesse mesmo. Um câncer a levou bem cedo e sua companhia me foi proibida por força da vida e da morte. Suas angústias a devoravam sem que o garotinho assustado pudesse entender ou resolver quaisquer dos seus martírios.

Eu sentara em seu colo e fizera uma daquelas perguntas que só uma criança sabe fazer. Qual, não lembro. Do alto de sua sabedoria, ela prontamente respondeu – e mais do que depressa eu retruquei:

“- Puxa, vovó, a senhora sabe tudo!”.
“- Não, meu filho, só quem sabe tudo é Deus...”.

Nesta encarnação, minha primeira experiência divina se deu através do carinho de uma avó... Cujo tempo na Terra estava no fim. Lá se foi minha referência de Deus...

Interessante poder lembrar parte deste curto diálogo e não ter outros dados a respeito dela. Nunca soube de sua vida, como criou seus filhos, como reagiu ao ver seus netos recém-nascidos. Quem era a minha avó, afinal? E por que a saudade que me oprime? Terá ela atendido ao meu chamado? Ter saudade de quem não se conhece é demais... Onde estará aquela mulher cujo corpo fora devorado tão rapidamente pelo câncer?

Um dia vejo minha mãe abrindo o portão de casa, suada e abatida. Corro e pergunto à queima-roupa onde está minha avó. Nos últimos dias, tenho ouvido palavras novas para mim. Hospital, internação, Moncorvo Filho... Este nome significou, durante muito tempo, a Morte. Moncorvo Filho matou a minha avó. Assim entendi sua ausência.

Contudo, lembro-me que minha mãe disse algo estranho, um pouco distante do que eu queria ouvir. “-Sua avó fez uma viagem e demora a voltar”. E demora mesmo. Até hoje espero por ela.

Lembranças de um tempo distante. Minha infância passou por mim sem que eu pudesse tocá-la. Muitas vezes quis enganar-me acreditando tê-la vivido ao máximo, uma infância de fábulas e castelos. Mas jamais pude convencer-me disso. Procuro respostas para perguntas que não fiz.

Se nada do que escrevi até aqui despertou em você a menor curiosidade sobre quem foi a criança que já não existe, somos então diferentes em muitos aspectos. Nossos mundos se repelem e distanciam a cada porque. Chamo então ao palco as lembranças de outrora, boas ou más. Odores, sons, cores, tristezas e alegrias. Tudo guardado bem fundo, bem longe da louca aventura que é ser adulto. E inicio a sós a aventura de relembrar meus dias e noites, cuja herança faz de mim o que não quero ser.

Tarefa para uma noite quente: sonhe com os mortos, entenda-se com os vivos...

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Flutuar não é voar...

A vida suspensa, volátil e covardemente quieta. Inquieta é a verdade sem rumo. Quem precisa de luz quando a cegueira se apresenta? A razão não enxerga vazios da alma.

Um pássaro canta na chuva e isso eu entendo. Mas não entendo a chuva querendo calar o pássaro. Não há motivo, nem há necessidade.

Considere um átomo em sua cruzada cósmica. De onde partiu ninguém sabe. Se vai chegar, espera-se. E se crê num propósito. Quem atirou o primeiro átomo a esmo? O acaso ou algum deus ingrato?

Brincadeira celestial sem fim, a vida poderia ser eterno flutuar não fosse o desejo inato de voar que sempre carreguei junto aos meus erros. Por isso asas pesadas são enfeites dispensáveis para quem rasteja.

Voar e cantar, assobiar na chuva em dias frios, celebrar vida e morte como cargas elétricas que se buscam e, desse encontro, colecionar trovões e raios - majestades sem trono que a natureza permite...

Flutuar sem rumo até que a ignorância se abstenha de causar ruídos.

E entender a diferença.

Tarefa para o recomeço: ignore o tempo.

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Condenados...

... Ao esquecimento: os que aceitarem arbitrariedades.

... À glória mundana:os que sejam arbitrários.

... Ao desterro sombrio: os que esquecem de si.

... Ao supremo prazer: os que não se esquecem do próximo.

Das menores ocasiões e das maiores tragédias. Pinçadas tanto lá como cá, as decepções cotidianas alimentam o espírito sem saciar o ego. Aprendizado tem mais afinidade com a dor, em vários temas da vida. Jamais deixamos de nutrir sentimentos esvaziados em se tratando de amor. Qual amor?

Muitos amores e poucas escolhas. Assim vivemos. Amar gente, coisa, futilidade, bicho. Amamos qualquer substantivo. Até que, por um adjetivo, morremos. Amo até palavras, se me dizem algo. Vazias, são caracteres brancos em fundo branco. Quase nada...

Tarefa de um breve devaneio: mudar a cor do fundo. Ou do mundo.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Vazios...

Qual dor é maior do que a da perda?

A do reencontro.

Dor de surpresa, para quem jamais acreditou na continuidade. Dor de quem desprezou avisos consistentes e deparou-se com a Verdade.

Convença-me do contrário.

A morte é certa.

Qual morte?

A do corpo.

Alma também morre?

Converta-me.

Morte. Meu corpo morre. Algum corpo morre. Fica a saudade. Ou o alívio. De quem?

Dói a morte alheia. A nossa, nem sempre sentimos.

Bem morrer: consequência do bem viver.

Diariamente. Como?

Preenchendo espaços.

Vazios que sucedem ruídos. Muitos ruídos. Para disfarçar a falta de conteúdo. Até quando?

Permanentemente.

Ou até que a morte te absolva... ou condene...

Vazios e mortalhas sempre renderam boas histórias noturnas. Ninguém deixa de dormir por causa delas, se bem assimiladas. Medo? De viver, talvez...

Tarefa de ontem: lembrar de viver mais o dia de hoje.

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Gavetas...

Modernas, antigas, limpas, bolorentas...

Digerem papéis e sonhos perdidos com a mesma eficiência.

Perfumam nossas infâncias com um toque de lavanda... ou estragam nossas meias quando ásperas...

Arrumadas, obsessivas; desarrumadas, rebeldes... Solitárias... Umas sobre as outras, lado a lado, únicas, muitas... Pintadas, forradas, envernizadas, recuperadas... abandonadas, servem de ninho para inúmeros desesperos...

Como seria se trocassem conteúdos?

Mais vezes acumulam inutilidades do que propriamente soluções para nossas rotinas insanas. Papel, metal, plástico. Segredos, perfumes, bugigangas de todas as idades...

E não tente esvaziá-las. Recuperam o conteúdo em pouco tempo, mais ou menos como os humanos, que recomeçam incessantemente suas novidades.

Somos gavetas esquecidas quando trancamos nossas chaves num absurdo comércio de idéias e prazeres efêmeros.

Mais vale uma gaveta vazia à espera de bom uso, do que uma cheia de quinquilharias arrogantes.

Tarefa de um abrir e fechar de gavetas: cheia ou vazia?

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Pressão.

Gente comum, soberanos, déspotas e mendigos.

Todos sob pressão constante, preocupante. Uns decidem pelo mundo. Outros se arrastam por ele. A maioria observa e se mantém longe das agonias alheias. Nenhum isento de responsabilidades...

Não há explicação que sustente por tantos séculos uma insaciável sede. De domínio pelo domínio. Fracos e fortes convivem desde priscas eras, nem sempre com justos resultados. Embates que se repetem à exaustão, nas furnas e nos palácios. Mortos e renascidos, esquecidos e venerados, os espíritos de sempre às escuras, tateando na inconseqüência.

Do fogo às guerras, da pólvora a Hiroxima, de Heráclito a Hitler... Uma linha definida como tempo saboreia suas glórias e ressurge sem aviso, sorvendo gotas de progresso aqui e acolá.

Da Velha Senhora, cujos braços embalaram as mais belas expressões do conhecimento e da organização política, pouco se espera nos dias que (es)correm. Suas células parecem flexíveis em demasia... Insensível, vê suas realizações com pesar, prevendo a derrocada.

E, longe dali, um de seus rebentos se agiganta. Verde por natureza, abundante e feliz como pode. Espoliado, sacrificado e abençoado, resiste acima da covardia dos que deveriam defendê-lo. De filhos fortes, tanto quanto inocentes, prepara-se para assumir sua grata missão.

Abriga gente comum, soberanos, déspotas e mendigos. Generais e poetas. Heróis e fúteis. A pressão é igual para todos. Sobreviver é ponto de honra. Mostrar o motivo é lição para o mundo.

Tarefa para sempre: honre sua pátria.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Avisos...

Que os céus desabem sobre nossas cabeças... Sem aviso.

Por tudo que tem acontecido no mundo, parece demais esperar que nos avisem da tragédia que estamos alimentando.

Nos últimos dias, tragédia econômica. Dinheiro, bancos, investidores. Por último, nós, mortais.

Preocupação maior, salvar patrimônios. Vidas, pensamos depois. Mobilização total para evitar quebras. Das bolsas. As muitas áfricas que esperem...

Negócios fechados em dólar podem trazer prejuízo. Não tenho dólar no bolso. A maioria sequer tem bolso.

Juros. Juro que não entendo. Sobem, descem e a crise continua. Crise?

Dinossauros não investiam na bolsa e foram dizimados. Não especulavam, determinando quem viveria e quem sobreviveria na selva pré-civilização.

Humanóides que nos antecederam também não tinham contas em paraísos fiscais. E foram substituídos por raças pouco melhores, até que chegamos aqui. Com muitos avisos.

Humanidade, respire fundo. A tão esperada renovação planetária já está em andamento. Nossas ações chegam ao limite do inimaginável e, sem renovação, as Escrituras não passariam de alegorias infantis desprovidas de sentido.

Temos sido avisados desde há muito, mas a urgência não passa de um perigo menor, quando mal avaliada pela ganância do homem (in)civilizado.

E não falamos da crise ética...

Tarefa das próximas horas: compre, venda, troque. Ganhe ou perca. Tanto faz...

sábado, 27 de setembro de 2008

Desencantos literários...

Há no mundo das letras toda sorte de azares e pesares.

Vê-se de tudo... mesmo. De crônicas profundas a notícias plantadas à força. De textos natimortos a lições inesquecíveis. E há os desencantos.

Talvez estejamos condenados a acordar tarde demais. O tempo passa despreocupado pelas estantes do mundo, sem parar para uma boa prosa - daquelas que ensaiamos depois de qualquer leitura (boa leitura). Precisamos compartilhar, é natural e saudável. Compartilhar aprendizado, porque conhecimento é química complexa e intransferível.

Creio ser esta a causa de tantas desilusões. Pessoas caem de amores por letras mas desprezam essências. Aprendo quando leio, mas só conheço quando pratico. Perdoem-me os literatos e doutores, mas não abro mão de pensar sozinho, mesmo que equivocado. Posso ler todos os perfis publicados na intrínseca rede acadêmica, mas só conhecerei seus donos se compartilharmos ações cotidianas.

Eis o mistério da improdutividade!

Aprendem e guardam para si e para os iniciados. Exceções são os frutos da ciência prática, aquela das descobertas únicas - salvadoras ou mortais, dependendo do uso que se faz de cada uma.

Tantas horas perdidas acumulando poeira nos escaninhos do esquecimento...

Tenho confabulado com alguns desses mortos. De Aristóteles a Nietzsche, de Jung a Hegel, não me faço entender por ninguém. Parecem surdos aos meus apelos semi-alfabetizados. Suas idéias podem estar ultrapassadas mas as letras pedem tradução. Não sei traduzir sem diálogo, e suas vozes calaram para ouvidos terrenos.

Sofro por não saber. Por saber sofro mais.

Escolho sofrer.

Tarefa de domingo: almoçar com a família, sem pressa.

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Breve pausa para velhos estudos.

Sócrates, Aristóteles, Sartre, Kant, Hegel, Agostinho, Tomás de Aquino, Nietzsche, Bill Waterson, Saramago, Monteiro Lobato, Humberto de Campos, Lima Barreto, Maurício de Sousa e outros tantos já deixaram no mundo suas marcas. Clássicos e contemporâneos, populares ou indevassáveis, sopraram enigmas e lições ao vento.

Li pouco de uns, nada de outros, bastante de vários e o suficiente de muitos.

Palavras, sempre palavras...

Alguns já nascem póstumos, segundo Nietzsche. Outros morrem anônimos e loucos. Poucos nos ensinaram de fato. Alguns nos divertem. Nenhum estava certo de tudo...

Então será sempre assim... Escreva o que escrever, fale o que falar, jamais tudo será dito.

Bem-aventurados os que se movem pelo mundo em busca de um sonho.

Bem-aventurados os que resistem à mediocridade.

Bem-aventurados os que se reconhecem inferiores.

Bem-aventurados os que trabalham para o próximo.

Bem-aventurados os que não me levam a sério.

Bem-aventurados os que não nos confundem com nossos escritos.

Bem-aventurados os que não chegaram até aqui.


Tarefa para quando estivermos prontos: viver o Sermão da Montanha.

sábado, 13 de setembro de 2008

Inimigos

Para quem não precisa ver sentido em tudo, verdades e mentiras adormecem sob o manto da dúvida. Ou do deslumbramento. E se confundem.

Sempre a velha desculpa de "curtir a vida porque ela é curta e fiz por merecer"...

A lista dos meus inimigos:
  1. Minha presunção.
  2. Minha irritabilidade.
  3. Meu descaso para com as oportunidades.
  4. Minha preguiça.
  5. Minha impaciência para com os arrogantes.
  6. Meu medo de ousar mais.
  7. Minha acomodação diante do que é inevitável.
  8. Minha ausência quando querem minha presença.
  9. Minha frieza.
  10. Meus sonhos que não se realizaram.
Dentre os mais importantes acima listados, um não é real. Não seja arrogante querendo descobrir qual. Nem eu sei! Aproveite seu tempo e repouse merecidamente, se assim lhe convém... Sentido para quê, se amanhã não estarei aqui?
Enquanto não inventam outra verdade, sigo vivendo a minha.
Tarefa para depois do descanso: descanse mais até fazer sentido!

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Sonhos...

Coerentes, inconsequentes, insistentes... Sonhos de muitos significados que não compreendo. Sonhos que pedem espaço na consciência porque faz muito frio no inconsciente, fora a escuridão.

Então, se sonhar é viver nas catacumbas do pensamento, o que nos resta senão escavar profunda e ferozmente se quisermos saber, de fato, quem somos? A alma dorme quando para fora olha. Jung já sabia.

Serpentes, rios, lutas, pai, amigos, amigas... Estavam todos lá, sonhando comigo. Descaso total com a realidade que me cerca. Ausência de limites só quebrada pelo despertar, que mais de uma noite salvou minha coerência... E minha sanidade. O medo falou mais alto e voltei à vigília, ao que já conheço e posso controlar de algum modo.

Cada dia mais perto do retorno, ainda reluto. A Vida se apresenta em muitas e delicadas cores enquanto a rotina em preto-e-branco domina a paisagem diária. Falta poesia ao longo da semana, do mês, do ano...

Falta intensidade, entusiasmo e desprendimento.

Falta humanidade. Falta humildade. Falta amor.

Tarefa ao dormir: sonhe cinza, realize em muitas cores.

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Tempos de paz...

Tempo de guerras... Tecnológica, ideológica, psicológica. Pelo território, pela separação, pela paz.

Guerra pela paz!

O que sobra do homem depois de experimentar o gosto da vitória sobre o seu semelhante? Nada que se arvore racional, apesar dos inflamados discursos proferidos aos montes. O vencedor anuncia seus feitos ainda no campo de batalha, pisando em cadáveres. Mortos não retrucam...

O planeta que nos abriga é um grande formigueiro depois da chuva. Caos. Movimento frenético. Desordem. Formigas levadas pela enxurrada lutam contra o destino e se reajustam à vida. Os homens apenas lutam.

Dias de formiga... intensidade, movimento, alento, alimento... Se elas conseguem, o que nos leva a não querer?

Egoísmo.

As imagens mais vistas são sempre as mais cruéis e sangrentas. Meu sangue. Seu, também. Tiros, pedradas, facadas. Tudo atrai, tudo vende notícia.

Eu tive um pesadelo! Eu era feliz. Vivia e morria feliz. Acordei assustado porque não podia estar ali. Ainda não...

Tarefa do dia-a-dia: não desista.

terça-feira, 26 de agosto de 2008

Presunção.

Dentre tantos males mundanos, o egoísmo reina absoluto. Depois dele, a presunção da sabedoria.

Saber que nada sei não é razão suficiente para calar a minha ignorância. Por isso ainda escrevo coisas tolas e sem sentido. Mais que pretensa arte, minhas palavras geralmente servem de espelho para poucos, porém atentos, leitores. Presumem que sei o que quero dizer...

Nem sempre. Mas deixem-me ser egoísta só mais uma vez... As críticas não chegam tão perto a ponto de sentirem a vibração da mente irrequieta que não me deixa dormir em paz... Muitos pensamentos desencontrados, nem todos só meus... Muitas realizações congeladas, todas minhas...

O egoísmo perpetua a ignorância, que repele a sabedoria, que curaria a ignorância, que afastaria o egoísmo...

Para ir mais longe, ouça a cadência da eternidade... Não há minuto que se perca nesse mosaico chamado pensamento.

Tarefa para uma sinapse: seja mais veloz nas ações. E mais efetivo. Se puder.

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Conversas aqui e ali...

Eternidade não é tempo...

Será, então, algo que possamos compreender? Quem sabe dizer quanto tempo nos resta?

Meus relógios marcam segundos sem fim, mas não entendem sequer o menor dos sentimentos.

Minha sombra acorda e dorme na cadência das horas, mas não se sustenta sem luz. Mais importante é a luz ou o tempo menos importante se faz? Conceitos, apenas conceitos...

Alguns instantes de conversa com bom amigo, choroso e saudoso de sua velha companheira... trinta e dois anos de convivência. A doença se instala, o corpo se dobra à dor e um dia ela se vai. Não dá mais tempo...

Eternidade é tempo para quem sofre a dor que não sofremos.

Para quem sente a fome que não temos.

Para quem desespera com o frio que aquecemos.

Eternidade é tempo quando não se quer tempo...

Raimundo, meu amigo... o tempo virá te confortar, quando maior for o teu abandono.

Tarefa do último minuto: correr contra o tempo.

Recomeçar.

Poucas fotografias emocionam de verdade. Minhas preferidas são aquelas em que as rugas se destacam nas faces anônimas imortalizadas em preto e branco. Nada contra o colorido. Mas a ausência dele me faz pensar no improvável.

O improvável reencontro entre objeto e artista.

O improvável retorno dos que pereceram na guerra.

O improvável descanso de quem sucumbiu ao medo.

Em preto e branco...

Aqueles olhos profundos que te encaram de longe são recados de Deus. Pequenos bilhetes amarrotados cheios de piedade. Carinho que não nos atinge porque nossa estupidez invalida as menores e melhores intenções de quem nos chama em silêncio.

Cada vez que encarava um desses estranhos, imaginava como seriam suas vozes. Velhos e velhas teriam vozes roufenhas, graves, cinzas, modestas... crianças não teriam voz, se quase mortas nos campos de refugiados... judeus e muçulmanos cantariam em doce harmonia... jovens armados nos morros cariocas soprariam um Pai-Nosso sobre os insensíveis e soberbos... os esquecidos de toda sorte entoariam a derradeira ópera antes de a cortina baixar em definitivo para esta existência.

Restaria então o recomeço.

Tarefa para depois da reflexão: faça alguém esquecido recomeçar.

Doa a quem doer.

Faltará sempre algo mais?

Minhas pernas me sustentam. Mas não me levam na direção certa.

Meus olhos enxergam. Mas não deixam a luz da realização chegar à alma.

Meus ouvidos escutam. Mas ignoram preciosos avisos que chegam dos mundos aquém e além.

Meus braços abraçam. Mas não envolvem ninguém que precise deles no frio da noite.

Minha boca fala. Mas não orienta na medida certa.

Meu cérebro distribui as ordens do Espírito. Mas sem discernimento.

Aleijões! O corpo corresponde, quando solicitado. A alma se perde no ócio criativo, deixando ao outro tudo que me compete... e o tempo escorre eternidade acima e abaixo.

Cada dia menos sei, até que um dia mais sofrerei. Prestar contas à Vida deveria ser mais simples...

Entenda como quiser, falo por mim. Meus dias são vazios como poderiam ser plenos. Que fiz e que faço se confundem no tempo e no espaço. Acima e abaixo, a sensação de perda resiste a qualquer catarse. Gritar não resolve.

Um sono profundo rasteja na minha sombra. Vive como vivem os vermes do pântano...

Despertar... o peso do esquecimento não vai tão fundo... amanhã, hoje, ontem, agora... modalidades ou variantes - sempre o mesmo tema.

Conhecer é sofrer pelo outro ou por si?

Tarefa para a noite: procure não sonhar.

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Sessenta e três anos e dois dias...

Duas bombas, duas lágrimas de Deus.

Pele, ossos, músculos, vidas... tudo desaparece em fração de segundo. Pó ao pó... inconcebível tragédia que pôs fim a outra.

Espíritos pairam ainda assustados com o poder da ignorância humana. Estupidez atômica, robustez econônica. Povos devorando povos até o próximo revide.

Renasci vinte e dois anos depois. Não sei se estive perto demais da cena. Certo é que as menores referências à Segunda Guerra enchem meus olhos de dor e saudade do que não vivi. E choro...

Soldado sem comando, corpo sem alma. Asas trabalhando para o caos, ordens cumpridas. Quem é o maior criminoso?

Milhares de irmãos transformaram-se em fotografias radioativas enfeitando um jardim de horrores. Enquanto os salvadores do mundo enriquecem, novos arquitetos da morte afiam seus compassos para mais fundo ferir seus iguais. E ainda ferem.

Quantas guerras são travadas enquanto você lê este depoimento? Dê conta das suas... é o bastante para hoje.

Aos que morreram e morrem nas guerras, paz!

Tarefa do resto da vida: desarme-se.

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Vida antes da morte.

Jamais duvidei da Vida após a morte. Tal qual Jung, eu não acredito... eu sei.

Mas... quando se trata de vida antes da morte, fica a dúvida. Contada em décadas, nossa existência na matéria nem sempre se revela pródiga em realizações. Não raras vezes, se traduz apenas em inúmeras realidades. Momentâneas, porém não menos intensas.

Realidades porque imersas no turbilhão de interseções - as vidas de cada um dos habitantes deste mundo - que escrevem e reescrevem epitáfios coletivos. Inúmeras porque recriadas incessantemente. Tudo tende à morte... tudo leva ao recomeço.

Quantos podem morrer cientes do dever cumprido? Quem já ostenta mérito suficiente para flutuar acima da desconfiança e do novo (nem tão novo assim) estado? Quem, enfim, soube morrer um pouco a cada dia?

Assim é se lhe convém.

Posso não estar aqui dentro de poucos segundos. Quem perceberá a sutileza da possibilidade, senão quem a vivenciou?

Intensidade. Segredo de bem-morrer ou ilusão do niilista?

Esquecimento - maior receio do materialista.

Minha vida é minha escolha. Minha morte é minha vida.

Qual a sua escolha? Minha vida? Sua sorte? Não se importe... saber o que nos espera é tarefa de cada um. Quem menos souber menos se lembrará de mim.

Dedico estas palavras a quem duvida do reencontro.

Tarefa de hoje: descubra quem...

domingo, 3 de agosto de 2008

Inconformado...

Se estupidez fosse inerente ao estado evolutivo da maioria, eu já teria deixado de acreditar na humanidade há muito tempo... otimista sem exageros, disfarço a indignação e o constrangimento buscando despertar da ignorância premeditada que, não duvide, mantém as aparências deste mundinho condenado a progredir.

Contabilidade da alienação: um idiota, outro idiota, mais um idiota... e a conta não acaba!

Quem dá mais?

Dou-lhe uma...

Abra seu coração e sua carteira!

Dou-lhe duas...

Pelo bem dos desesperados!

Dou-lhe três!

Tarefa do dia: Grite, se precisar... mas tente acordar alguém.

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Antes da batalha...

Nos filmes, cada rosto exibe suas peculiares lembranças. Rugas, vincos, juventude seqüestrada, amores em luto... em todos a esperança, quase diáfana, do retorno.

O velho sargento torturado pelas dificuldades morais é sempre o símbolo da resistência. Exceto morrer, sobreviver é tudo que lhe resta.

De outro ângulo. Generais e suas bestas marciais ao redor de mapas - tão informados estão da estratégia, quanto a formiga de seu destino diante do tamanduá. Lutar é preciso, vencer é dúvida. Daí o soldado inconformado e suas lágrimas represadas.

A farda se transforma em mortalha. O fuzil jamais terá o peso da crença que o move. O cheiro de sangue que lhe invade as lembranças é o fim de uma metáfora.

Tudo isso nos filmes.

Agora mesmo, lá fora, as bestas marciais se travestem. Trocam capote e capacete por cargos e legendas. Politizam meu direito ao não, cavando profundas trincheiras estranhamente denominadas votos. O que deveria me proteger me soterra. Democraticamente.

"Ao meu comando! Fogo!!" Imobilidade. Patriotismo. Civismo. Orgulho. "Fogo!" Morte iminente. Incerteza. Guerra aberta. Horror.

Quem vê um pavilhão tremulando não entende quanto daquele instante representa a chance de merecida vitória. Conquistá-lo é um dever cívico. Ontem, tiros e baionetas. Bombas e covardes.
Hoje, digna ação. Indignação. Ação. Reflexão.

Nova batalha se aproxima. O gosto inenarrável do desconhecido se apresenta na boca ressecada. As ordens se confundem enquanto as hordas avançam impetuosas. Não existe plano de fuga. Proteja-se a tempo. Agora é real, os filmes ficaram na memória com seus finais quase felizes. Bandidos e mocinhos, todos neblina da história.

Batalhas decidem guerras. Escolhas ratificam desejos.

Tarefa do mês: pense!

segunda-feira, 28 de julho de 2008

Passando...

Gerúndios geram bons títulos. Não duvide. Para cada um deles, dezenas de possibilidades se avizinham depois de outra noite insone. Carneiros já não pulam cercas desde meus tempos de criança. É quando surgem idéias saltando as barreiras do absurdo - inúmeras, incontáveis, algumas insondáveis... poucas realizáveis.

Dúvidas: passado, presente e futuro. Em algum tempo são a mesma coisa? Deixam de ser? Quando se destacam da eternidade?

Doutores empoeirados, acadêmicos endeusados, pseudo-sábios e deslumbrados de toda sorte cuidam de esmiuçar suas anotações em busca do óbvio. Valores do Eterno são domínio da Poesia. Até que a ciência se renda ao Espírito.

Quem pode falar em Tempo sem macular teorias particulares?

Quem destrói verdades cantando inverdades?

Quem reconstrói fatos renovando esperanças?

Poetas. E loucos. Para quem souber a diferença...

Que é o desconstruir/reconstruir dos acadêmicos? Me irritam profundamente com sua arrogância diplomada.

Sobre os tempos: Presente nada mais é do que um eterno Passando! Cada segundo passa. Passou, é passado. Cadê o Presente que estava aqui? Brincadeira de criança que a ciência jamais compreendeu. Enquanto poetas brincavam...

Libertem-se! Deixem de lados seus textos há muito falecidos e permitam que os dias tragam novos conhecimentos. Esqueçam a vaidade e estendam a mão para as diferenças. De verdade, sem o disfarce da obrigação. Ninguém fará o bem impunemente. A recompensa não é imediata mas é real.

Experimentem sair da caverna. Conhecimento pode ser comprado nas Universidades. Sabedoria se adquire vivendo. A qualquer tempo.

Tarefa de ontem: ?

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Se o vento não pôde continuar...

Madrugada, lua, vento norte.

Calor no inverno, cães inquietos, noite insone.

E nasce mais um texto.

Sem grandes cuidados, letras se procuram sem procurar sentido - querem olvido...

A indignação é legitimada pela dúvida? Pasmo. Estarrecido. Dividido. Ainda podemos crer na humanidade?

Que são aqueles criminosos prepotentes desafiando nossas inteligências?

Que são aquelas autoridades desautorizadas a falar sem fim?

Eu calo de tristeza, você cala por calar - já dizia Zé Ramalho.

Não se cale ainda. Lute, perca, morra... mas lute. Quem decide meus caminhos, senão eu? Quem muda suas opções senão os fatos? Que fatos te chocaram nos últimos dias? Crianças mortas, mães desesperadas, assassinos sorridentes, inocentes, crentes?

Ou sorrisos milionários debochando da sorte? Ou bêbados cambaleando nas sarjetas? Ou muçulmanos morrendo e matando? Ou africanos renascendo na fuga? Ou terremotos e enchentes na China?

O fato mais chocante para mim: não chorei diante de tantos horrores. Frio. Seco. Observador. Nenhuma dor. O que estamos fazendo com nossos sentimentos? Perdidos estão? Guardados então? O Mundo precisa de todos eles. Meus, seus, nossos...

E se o vento não pôde continuar sua obra, um suspiro não fará diferença.

Muitos ainda esperam um dia exato para o início do fim dos tempos. Tolos! Cada dia traz consigo seus Particulares Apocalipses. Formiga sem formigueiro, peixe sem mar, pássaro sem asa, estômago sem alimento, tortura sem esperança, relógio sem hora, ímpar sem par.

Tarefa do próximo segundo: escolha o seu Apocalipse e troque comigo.

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Hoje

Tenho tempo.

Cada dia traz consigo a marca do infinito - um ponto distante, que seja. Mas ponto. Não há referência, parâmetro ou distância que o identifique. É ponto. Final.

Hoje tenho tempo.

Até para não ter tempo. Todo dia leva consigo a marca da finitude, posto que finito. Dias começam e terminam no tempo exato de cada eternidade. Não há tempo que baste se a alma dorme.

Poetas, tremei! Nunca haverá tempo que espere por tantos versos mudos.

Há quem sobreviva ao Tempo? Os não-mortos que já não são corpos, estes sim sobrevivem além d'Ele.

Tempo... tenho, deixo de ter, desperdiço, ganho, perco... enquanto o tempo passa.

Sábios, tremei! Nada quero além da liberdade, da possibilidade, da realidade. Sequer preciso de tempo para querer... por isso quero querer sempre que quiser!

Tarefa de um Tempo inteiro: descubra a utilidade de um relógio aos pés da eternidade.

quinta-feira, 10 de julho de 2008

O Velho.

Mata fechada e o velho bendizia as sombras sussurrantes que o convidavam de longe. Ainda não era noite quando ele, cansado de buscar respostas, saiu à procura de perguntas.

Este é o início de um texto igual a tantos outros que já li por aí. Descreve o cenário, introduz personagens, desenvolve um tema nem sempre útil e aposta num desfecho encantador ou trágico, de acordo com quem lê.

Não sei se o Velho concordaria comigo, mas vou arriscar. Nem ele se reconheceria na narrativa. O Velho será estilizado, julgado, desprezado em suas características marcantes... será falso sob todos os aspectos.

O Velho real nasceu, viveu e morreu como era de se esperar. Nasceu velho em corpo de criança, morreu criança em corpo de velho. Passou com a vida (não pela vida) semeando esperanças sem olhar a quem. Todas as cores marcaram suas retinas, todos os sons encantaram seus dias, todos os cheiros evocaram lembranças... viveu, enfim.

Olhou para a mata vendo o que sempre viu. Nenhum título o faria ver diferente. Jamais enganou-se ou encantou-se com com a estupidez de seus pares. Conheceu de tudo um pouco mas não pôde conhecer tudo de si mesmo. Daí a tristeza em seus olhos.

Das sombras da mata vem a névoa inconfundível do recomeço.

É quando tudo faz sentido. Sim, é preciso buscar sentido para a Vida. No passado, no presente e no futuro. O sentido é o recomeço a cada dia. Cada dia nasce, cresce e morre a seu tempo. Manhã, tarde e noite - infância, juventude e maturidade. O mesmo dia dito com palavras diferentes, inexatas, incapazes de traduzir sequer a menor das alegrias do Velho que se despediu da carne e continuou espírito.

Adeus, Velho. Seus dias enriqueceram nossas vidas. Nenhum título mudará isso.

Hoje não há tarefa.

terça-feira, 8 de julho de 2008

Humanidade, humanidade... devo ainda confiar em ti?

Quem poderá aceitar a dor, senão quem a convida?
Quem encontrará alento na hora do desespero, senão quem desesperou?
Quem permanecerá submisso, além daquele que a tudo se rende?
Quem ousa mais, senão aquele que foi desafiado?
Quem resiste além do insuportável, além daquele que não suporta suas mentiras?
Quem?
Humanidade, humanidade...
Delegaste teus sonhos aos medíocres e eles sonharam!
Elegeste os escolhidos e eles escolheram o teu abandono!
Triste humanidade...
Teus filhos reclamam afagos que outrora seriam alentos, mas agora teus carinhos são ventos gelados em noite sem esperança!
Ah, humanidade! Como te desejo recriada e feliz... ainda há tempo para quem se atreve a te cortejar...

Tarefa para sempre: humanize-se!

quinta-feira, 3 de julho de 2008

Átomo.

Por
Todos
Os cantos
Vi gente
Nascendo, morrendo, sofrendo, querendo, sendo...

Por
Todos
Os cantos
Revi gente
Dormindo, sentindo, sorrindo, fingindo, florindo...

Renasci
Morri
E
Senti gente
Cantando, chorando, brilhando, sonhando, amando...

Qual o significado de um poema? Qual a vantagem de ser átomo? Qual o desejo mais fiel? Qual a lágrima menos doce que já chorei? E a mais amarga? Qual será a melhor nuvem no céu? E a menor? Qual será o próximo qual? E quando? Quando deixarei de não-ser? Quando a Filosofia servirá para alguma coisa? Quando a mídia vai nos deixar em paz? Quando parar de escrever sem dizer nada?

Poemas são decepções mútuas. Quem escreve não entende, quem interpreta se surpreende. Palavras, palavras, palavras...

Tarefa do dia para mim: desligue o computador e volte à vida.

terça-feira, 1 de julho de 2008

Escolhas.

Vida ou morte, claro ou escuro, medo ou coragem, partir ou ficar, doce ou salgado, quente ou frio. Verbo ou adjetivo, ponto ou vírgula, fim ou começo.

Escolho não escolher. Qualquer decisão trará sofrimento. Devo sofrer porque escolhi não escolher? Não há saída.

É como parar de pensar. Queria por um dia viver a vida das pedras apenas para saber o que elas pensariam se pensar pudessem.

Também queria morrer na guerra apenas para saber se valeria a pena lutar por uma causa que não é minha nem sua.

Quero um dia voar, apenas voar.

Quero um dia escolher sem culpa. Sem conseqüências. Quero tantas opções quantas forem as minhas dúvidas.

Algumas vezes mudei de rumo apenas por ouvir a consciência. Mas, por não ouvir a consciência, sempre perdi o rumo. Sabedoria custa caro. Ignorância também.

De quanta sabedoria precisamos para entender que o mundo não precisa ser entendido? Traduzir em minúcias os desejos da humanidade não é tarefa de publicitários, embora alguns acreditem nisso. Quase todos os dias alguém diz que você está desatualizado, fora de moda, cinzento - quando o mundo é colorido, festivo e descartável.

Não se esforce em vão. Aqui deixo o meu protesto, não um testamento. Um desabafo, jamais uma verdade.

Diálogos oportunos, que deixam de lado quaisquer formalidades, são terapêuticos e criativos. Também podem ser reflexos das nossas desditas. Converse consigo alguns minutos por dia.

Máscaras. Usá-las ou não. Escolha difícil.

Máscaras. Tirá-las ou não. Escolha cruel.

Tarefa do dia: dê novas cores à sua máscara...